Especulação. Talvez esse seja o pior problema que alguém ou alguma coisa pode ter em sua existência. Lembrem-se que foi especulação que derrubou a economia mundial em 2008. E agora é de especulação que a Apple teve que lidar.
Se você acompanha notícias pelo menos uma vez por dia e se interessa por tecnologia, já deve saber que o novo iPhone 4 sofre de um problema aparentemetne sério de recepção de sinal. Há quem diga que segura-lo de maneira natural faz com que o aparelho fique totalmente sem sinal algum, impossibilitando efetuar/receber ligações ou navegar na internet. Agora, saiba aqui por que isso é, em sua maior parte, pura especulação.
O ano é 2005. A Microsoft lança o tão esperado Xbox 360, marcando o início da atual geração de videogames. Um produto de massa, preparado para vender milhões de unidades. Meses depois, uma enxurrada de relatos na internet e fora dela indicavam que o produto sofria de um sério problema de projeto. Superaquecia até se danificar por completo. No início, o burburinho começou na internet, onde as notícias se espalham mais rápido que um tsunami. Mas depois, os relatos foram chegando mais perto, onde até o seu próprio vizinho já acusava de ter tido o mesmo problema.
Isso obrigou a Microsoft vir a público, admitir o problema e sanar o dano: extendeu automaticamente a garantia para 3 anos e começou a trabalhar em revisões de hardware.
Estamos meio que acostumados a ver este tipo de acontecimento na indústria automobilística, onde um problema no cinto de segurança ou trava nas portas gera um programa de recall de milhares de carros já vendidos. Dificilmente algo assim acontece na indústria de eletrônicos de consumo, as vezes em casos muito isolados e com produtos de nicho. Talvez o caso das 3 Luzes Vermelhas (3RL) do Xbox 360 tenha sido o maior já registrado nesse mercado.
Atualmente, a Apple está enfrentando um problema semelhante com o iPhone 4. Pouco depois de seu lançamento, blogs começaram a relatar que, segurando-o de uma forma até natural, o aparelho perdia parte ou até totalmente o sinal da operadora, deixando-o completamente offline. Afirma-se inclusive que isso acarretaria a frequentes quedas de ligações simplesmente por se estar segurando o aparelho com a mão esquerda. A Microsoft tinha um videogame que não funcionava. Agora a Apple com um celular que não funciona.
Acontece que parte disso não é verdade. Vejamos: o iPhone 4 possui um design diferente do que se visto em comum na atualidade. Hoje, praticamente todos os aparelhos celular possuem antenas internas; no iPhone 4 ela é externa. Ela é a borda metálica que envolve o aparelho. E, todos sabemos, a antena é que capta os sinais sem fio. Se a taparmos de alguma forma, estamos obstruindo a conexão do aparelho com a rede. Isso é fato e é física, e acontece com todos os aparelhos já lançados, mesmo os que possuem antena interna. Por que então o iPhone 4 é que teria um problema de projeto de design?
O iPhone 4 tendo uma antena externa, pode, na prática, torná-la mais vulnerável a obstáculos, como a nossa mão? Sim. Mas isso de fato causa um problema de interrupção de serviço em todo iPhone 4 existente? Não. O que Steve Jobs mostrou ao publico não é mentira. Ao contrário do caso do Xbox 360 onde a taxa de retorno e defeito era altíssima (apesar de nunca divulgada oficialmente, especula-se que entre 30% e 50% dos Xbox 360 eram defeituosos), o iPhone 4, na prática, não possui problema algum. Qual a diferença aqui? Ora, um telefone com esse tipo de problema seria quase que inutilizavel, assim como o Xbox 360 era um videogame inutilizavel. Se o iPhone 4 realmente tivesse um problema dessa magnitude por um defeito de projeto, a taxa de retorno e de reclamações deveriam ser bem mais altas, não? Mas o que ele possui é apenas uma característica negativa intrinseca a toda antena existente no mundo.
Pesquisando na internet, percebemos que praticamente ninguém se queixa de estar com um iPhone 4 inutilizavel por causa do problema da antena. Com alguns relatos coletados pelo Engadget das mais diferentes pessoas nos mais diferentes locais, podemos observar que o problema geralmente pode ocorrer onde a cobertura já é fraca e a pessoa intencionalmente tenta simular o problema, ou seja, tampa a borda do aparelho com demasiada força. Mas, em situações normais de uso, assim como acontece com a maioria dos celulares, não há queda de ligação nem de conexão com a rede. O sinal pode sim se degradar, mas não a ponto de causar queda de conexão. Afinal, o que é realmente relevante: degradação do sinal (sem perda explícita de qualidade da conexão) ou perda total de conexão?
Como o iPhone 4 ainda não foi lançado no Brasil, fica difícil de pedir para que, caso você não possua um, pesquise com seus conhecidos se ele teve algum problema com o aparelho. Você provavelmente vai ouvir desde:
“Não, nunca tive”
Até um:
“Se eu tentar simular, sim, vou ver as barrinahs de sinal caindo, mas no dia a dia nunca tive problema com ligações ou conexão com a internet”
Simplesmente porque na prática, no mundo real, é isso que acontece.
Por que afinal tamanha repercursão, já que o problema na prática, no dia a dia, não existe? Simplesmente por uma mistura de sensacionalismo com certo desconhecimento do publico. Ao ver videos demonstrando a degradação do sinal postados por usuarios na internet e inclusive blogs de renome, mesmo aqueles que nunca tiveram um iPhone 4 em mãos dão suporte ao “problema”. Problema esse que é possível simular em outros aparelhos de outras marcas e modelos. E por que, então, a Apple se deu o trabalho de ir a publico esclarecer o problema e ainda oferecer cases gratuitos e reembolso a clientes insatisfeitos? Primeiramente para conter a degradação de sua imagem perante os consumidores. Mas, mais importante ainda: a especulação estava afetando suas ações na bolsa. Apesar de na prática não haver real problema com o produto, a especulação preocupou investidores e afetou suas ações. Aí sim, era preciso conter o dano. Aí sim, ela veio a público e fez aquilo que a própria especulação sugeria. Ou seja, deu a tranquilidade que estavam pedindo. A Apple teria realmente um problema se ignorasse tudo isso.
Confesso que eu mesmo, ao ver os primeiros videos e relatos, fiquei perplexo de observar que tal produto teria sido lançado com tamanho erro primário de projeto. Mas, sabendo do perigo da comunicação na internet, antes de tirar uma conclusão definitiva, faço uma pesquisa mais a fundo, coleto relatos, pergunto a amigos, conhecidos, fóruns, etc, já que um iPhone 4 estava longe do meu alcance. Ao contrário do que ocorria com o problema do Xbox 360, não há relatos e reclamações suficientes para dizer que o iPhone 4 tem um problema de projeto que exija um recall ou revisão de hardware. O que há é simplesmente superexposição e sensacionalismo. Já brinquei muito de fazer a barra de sinal cair em celualres que já tive tapando o local onde a antena se encontrava. Muitos manuais de celular mostram onde a antena se encontra internamente pedindo cuidado para não obstrui-la.
Mais uma vez: não estou defendendo ninguém. Mas se compararmos o problema do Xbox 360 que foi algo semelhante ao do iPhone 4 em termos de repercursão, vemos que o que se vê e o que se lê na internet nem sempre é o que parece ser. Sei que para alguns este artigo vai soar tendencioso e parcial demais. Ele não é sobre “defender a Apple” e sim “como a especulação destói coisas”. A Apple, simplesmente por estar em evidência atualmente, serviu de bode expiatório por um “problema” que já existe desde a concepção dos primeiros aparelhos celular. A Apple não está corrigindo o problema da antena, mesmo porque não há como fazê-lo. Ela está corrigindo o problema da especulação. Pois esse é o principal problema que o iPhone 4 tem.


